Travessão não é pecado: o que realmente denuncia um texto escrito por IA
Nos últimos meses virou moda caçar sinais de texto escrito por IA em qualquer lugar. Vê um travessão, desconfia. Vê um emoji a mais, desconfia. Vê a palavra “crucial” ou a expressão “nesse cenário”, já sentencia: isso foi escrito por IA.
Eu entendo de onde vem a desconfiança. Mas discordo, em partes, do critério da etiqueta “pecado”.

Um hábito que vem de muito antes da IA popularizar
Lá nos anos 2000, quando eu escrevia no meu primeiro blog, o Atalho Cognitivo, já usava ” — ” no lugar de parênteses. Não porque alguma IA me ensinou (elas nem existiam do jeito que existem hoje), mas porque gosto do ritmo que o travessão dá à frase, daquele respiro que separa uma ideia da outra sem fechar tanto quanto o parêntese fecha. Sigo usando até hoje, inclusive neste texto.
Então quando alguém me diz que travessão é “cara de IA”, eu só penso: cara de IA ou cara de gente que lê bastante e presta atenção em pontuação? A verdade é que ferramentas de IA foram treinadas em cima de texto humano, o travessão bem usado é um recurso antigo da língua escrita, não uma invenção de chatbot. Confundir consequência com causa é o primeiro erro dessa moda — ou seria “desse pecado”?
Um artigo recente da Fast Company Brasil foi buscar essa discussão a fundo: segundo o texto, quem estuda o assunto aponta que a real assinatura da escrita artificial não está numa palavra isolada ou num sinal de pontuação, e sim em padrões mais amplos de construção da frase, como o abuso de metáforas vagas, afirmações genéricas demais ou o excesso da chamada “regra de três” (quando o texto agrupa ideias em blocos de três, tipo “rápido, prático e eficiente”, um recurso que funciona bem uma vez, mas soa mecânico quando se repete a cada parágrafo). Ou seja: o problema nunca foi o travessão. É a mecanicidade.
O quena minha visão, realmente denuncia um texto escrito por IA
Onde concordo plenamente com quem se incomoda: excesso cansa e, no caso dos emojis, infantiliza. Um texto escrito por IA ou mesmo uma legenda de rede social, lotado de emoji vira poluição visual, tira a seriedade do que está sendo dito. No LinkedIn esse cuidado precisa ser redobrado, porque ali as pessoas estão se conectando profissionalmente, não trocando figurinha.
O mesmo vale para as palavras clichê que a IA repete sem parar: “crucial”, “nesse cenário”, “vamos mergulhar”, “é importante ressaltar”. Não é o vocabulário em si que é errado (são palavras da língua portuguesa, ninguém as proibiu), é a repetição preguiçosa, sem revisão, que faz um texto perder voz própria e virar uma cópia de mil outros textos gerados às pressas.
O que realmente separa um bom uso de IA de um uso descuidado
Eu não escondo que produzo conteúdo em parceria com Inteligência Artificial desde que ela se popularizou. Antes disso, era eu sozinha pesquisando, escrevendo, revisando e publicando, inclusive como autora convidada no CINEBusiness, escrevendo sobre lições de gestão que os filmes ensinam. A diferença de hoje é o parceiro de trabalho, não o cuidado que eu tenho com o resultado final.
E esse cuidado, no fim das contas, é o que separa um texto escrito por IA com responsabilidade de um texto jogado no ar sem revisão:
Parece óbvio, mas não é raro encontrar esse tipo de deslize publicado, inclusive em legendas de redes sociais de perfis grandes. E existem casos ainda mais graves: recentemente o Terra precisou publicar uma nota de esclarecimento porque um parceiro do portal divulgou uma matéria sobre saúde citando especialistas que nunca existiram, criados inteiramente por IA. Não foi o travessão que causou esse problema. Provavelmente, foi a falta de revisão humana no texto escrito por IA.
Transparência em vez de camuflagem
Por isso, aqui no Laboratório das Ideias, eu prefiro o caminho contrário ao da camuflagem. No fim de cada conteúdo, deixo registrado com quem eu trabalhei. Nesse caso seria:
Conteúdo desenvolvido com Inteligência Artificial (IA) e Inteligência Orgânica (IO): Claude + Reve + Canva🤝 Nice de Paula
Não é “frescura”, é transparência. Prefiro mostrar quem me ajudou a transparecer que fiz tudo sozinha só para escapar de um julgamento sobre travessão ou emoji.
No fim das contas, o que faz texto escrito por IA soar humano não é a ausência de certos sinais de pontuação. É ter alguém do outro lado, prestando atenção, cortando o excesso e assumindo a responsabilidade pelo que está sendo publicado.

Empreendedora desde 2012, trago no olhar curiosidade; na bagagem, a experiência de quem viu o mundo analógico se transformar em digital, mergulhando nessa mudança com entusiasmo e propósito. Com duas graduações, algumas especializações, sigo aprendendo, reinventando caminhos, explorando novas rotas para conectar ideias a pessoas.
